Teria apenas 10 anos. Abraçava uma nova ideia de vida, um novo ser, e despojava todos os pensamentos da complicação etérea do dia azul. Como ainda faço quando escrevo, espremia todas as fugas possíveis e deixava que “a coisa” tomasse conta de todos os actos profundos. Há quem lhe chame “inconsciente”. Eu não. Prefiro acusa-la de todos os devaneios desconhecidos que constituem o motor da criação. Na altura, libertava-me de fantasmas. Ganhava forças para os enterrar e renunciava à perfeição de querer saber tudo, de querer conhecer tudo aquilo que não poderia ser conhecido. Filosofias… Finalmente, depois de anos de sofrimento e amarguras, libertava-me para a simplicidade, para o descanso de pensamentos, para o sono. De cada vez que imaginava tornava-me forte, capaz de vencer todos os monstros. O problema é que imaginava monstros cada vez maiores… gigantes… enormes. Todos os dias. Deixava-me envolver em lutas desgastantes com a imaginação e implorava aos deuses (quando creditava neles) para que me ensinassem a carregar no botão que desligaria a cabeça, mesmo quando a dormir…
No entanto, quando menos esperava, a realidade bateu à porta, e eu deixei-a entrar com toda a permissividade do mundo. Limpei as últimas lágrimas e transformei-me em pedra. Ao percorrer esse misterioso livro esbocei um rosto de desencanto. Li-o do princípio ao fim. Sem parar. Reli-o. Descobri que os sonhos estão lá todos escritos, em mil e uma cores, com uma caligrafia de se lhe tirar o chapéu. Amargura-me saber que o anónimo não os pode escrever outra vez num outro livro. Foi a primeira e última vez que humedeci os dedos nos lábios para folhear…